Em defesa da Peteca como instrumento das esquerdas no videogame

A Peteca é de quem dela se apropria. Ela serve para sabotar o oportunismo e demais obstáculos à construção de solidariedade, sem mediação e falsificação burguesas. Nós somos responsáveis pelo sucesso da Peteca. Nós: você inclusive.

Em 2018 foi escrita, a muitas mãos e contendo mais de 250 assinaturas, uma carta aberta endereçada ao BIG Festival (que pode ser lida aqui), apresentando diversas insatisfações da comunidade do videogame independente nacional em relação aos rumos do evento. A carta questiona seu modo de organizar as decisões, sua falta de transparência, o desprezo pelas contribuições nacionais, independentes (expondo a contradição da marca) e estudantis, entre outras preocupações muito justas. A redação da carta reuniu indivíduos e grupos com diferentes visões estratégicas sobre o que fazer com essa insatisfação. A síntese dessas disputas foi fazer da carta uma pressão por melhorias do festival, com a compreensão de que estaríamos piores com uma completa ruptura, se perdêssemos totalmente o acesso aos acúmulos do BIG, àquilo que sua estrutura poderia possibilitar.

Desse momento de agitação surgiram algumas iniciativas com o objetivo de construir alguma coisa mais duradoura. Uma dessas iniciativas foi a Peteca, fundada a partir da redação coletiva de seu documento principal: um conjunto de princípios e objetivos que orientam nossa prática (e que pode ser lido aqui). A Peteca nasce, então, como um sistema de gestão de eventos de recorte anticapitalista, ou seja, de ruptura e desafio ao controle burguês do videogame nacional. Na redação também foi estabelecido o nosso funcionamento: a organização não seria centralizada em indivíduos e precisaria de um sistema para impedir que essa centralização ocorresse por inércia. Foi criada a fila de puxadores: qualquer colega, independentemente de seus acúmulos, poderia se inscrever como puxador, ou seja, o responsável por propor um encontro e colocar no centro do debate aquilo que lhe é caro. Assim, construímos pluralidade e espontaneidade na nossa organização, com a rotatividade de responsabilidades e o compartilhamento de saber e praticar. Também criamos ferramentas de transparência e desmistificação do processo organizativo, de modo que todos possam compreender que não há nada pronto, não há nada que tenha sido conquistado sem trabalho e colaboração. 

Ainda em 2018 nos deparamos com a candidatura presidencial do atual presidente Bolsonaro e sua agenda proto-fascista de governo. Tomamos a iniciativa de escrever uma carta de compromisso antifascista (que pode ser lida aqui) e buscar assinaturas de organizações e coletivos do videogame nacional. Percebemos relutância e covardia nos setores mais liberais, ora comprometidos com o aparelho de Estado e temendo por sua continuidade numa nova conjuntura política, ora comprometidos com o empresariado fascista em franco apoio a Bolsonaro. Hoje, avaliando o texto, percebemos que há algumas concessões ao discurso liberal (onde afirmamos, por exemplo, que o fascismo teria uma natureza antiliberal), um erro que julgamos estratégico na época. Se, por um lado, faríamos diferente hoje, por outro lado é ainda mais preocupante que os setores liberais tenham tido tanta dificuldade em endossar a carta. Conquistamos várias assinaturas, de organizações brasileiras e internacionais (optamos por não incluir assinaturas de estúdios e indivíduos por questões de segurança), algumas mais fáceis e outras mais disputadas. A carta antifascista foi um marco importante: compreendemos os limites que a presença burguesa e a estrutura de Estado impõem sobre nossa capacidade de agir, sobre nossa liberdade e segurança.

Percebemos que, embora fossem comuns os discursos genéricos e pessoais contra o racismo, a misoginia e outros valores que estavam claros no programa bolsonarista, essa “opinião sensata” nem sempre se transformava em ação, nem sempre tomava corpo em instrumentos de fortalecimento concreto dos mais vulneráveis. Quem conhece a indústria do videogame sabe: os colegas marginalizados não tem a opção de se colocar com firmeza, de traçar as linhas que preservam sua dignidade, sem abrir mão de uma carreira no reservado mercado de trabalho da nossa indústria. Um burguês com opiniões progressistas é antes de mais nada um burguês, e ele não está disposto a abrir mão de seus privilégios. Mesmo a ocasional afirmação de suas opiniões tão nobres não passa de um negócio lucrativo, atualização do capital político de sua marca. Ele irá negar até mesmo a simples assinatura de uma carta que o favorece no discurso se perceber que ela o desfavorece na prática, se perceber que ali há o germe do poder popular. 

Nos opomos à recuperação burguesa das agendas anti-racistas, anti-misóginas, anti-lgbtfóbicas, anti-coloniais etc. A Peteca se compromete a somar e engrossar o caldo dessas lutas populares, sem o sequestro do seu protagonismo nem a negociação de suas demandas em troca de holofotes. A Peteca também é descentralizada e composta por diversos rostos que, não por acaso, também compõem as lutas citadas. Isso posto, há um compromisso constante na Peteca em não se tornar mais um análogo da hegemonia patriarcal, branca, heterossexual, cisgênera e burguesa, mantendo o frequente diálogo e ouvidoria com os membros cujos corpos e existências rebelam-se contra as supra-estruturas do capital. Isso significa que a Peteca é de quem dela se apropria: ela serve para sabotar o oportunismo e demais obstáculos à construção de solidariedade, sem mediação e falsificação burguesas. Nós somos responsáveis pelo sucesso da Peteca. Nós: você inclusive.

A Peteca é um sistema de abrangência nacional: Porto Alegre, Aracaju, Brasília e São Paulo já organizaram encontros e estabeleceram, com isso, relações de solidariedade localmente e nacionalmente; criaram experiência, história e exemplo. Cada iniciativa, por mais modesta que seja, nos fortalece e nos torna mais aptos a disputar as nossas cidades e a nossa cultura. O videogame burguês, aliado do fascismo e ladrão de nossa liberdade, não está atento às nossas cidades e às pessoas que nelas vivem, podemos até dizer que sequer as conhece: aproveitemos isso!
Por todas essas razões defendemos a Peteca como um instrumento de organização da nossa cultura por nós mesmos, trabalhadores, artesãos e artistas populares do videogame brasileiro. Nos colocamos contra os setores burgueses que nos ameaçam com a exclusão do mercado e nos utilizam apenas quando isso é chique, como se fôssemos um recurso disponível para ser tomado. Não precisamos deles! Somos gente com gana de viver e de fazer do videogame uma coisa viva, nossa e daqui. Fazemos da Peteca uma prática de liberdade!

Este texto foi escrito coletivamente por comissão voluntária da Peteca em 09/06/2020

Versão em pdf disponível aqui.

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